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Cidades

O infinito agora

O tempo é um problema para nós, um terrível e exigente problema.[...] A eternidade, um jogo ou uma cansada esperança.

Jorge Luis Borges, História da eternidade

O mistério deste agora fugaz e irremediável. Para enfrentá-lo, o tempo ganharia imagens e medidas: o círculo para os gregos, o fio da História. Mas este é um mundo que não se experimenta mais como uma grande linha no tempo, e sim como redes que entrecruzam suas tramas. As mudanças no espaço e no tempo da vida contemporânea nos colocam um paradoxo: se o tempo torna-se labiríntico e multidirecional, também é comprimido na circulação veloz das imagens e informações pelas novas tecnologias. O agora deixa de ser o momento de transição entre um passado e um futuro que lhe dá sentido, para ser o intervalo dilatado e desviante da experiência ou o instante sincrônico e eternamente presente das mídias e redes eletrônicas.

Os vídeos e as fotografias que Bruno Vieira apresenta nesta exposição são atravessados por três inquietações de fundo: o colapso do tempo, a poética dos elementos, o sentido de verticalidade. Como habitar esse tempo que perde modelos e desenhos? De que modo esse colapso modifica nossa percepção da memória, a noção de passado e futuro, a vivência do agora, a experiência estética? Como abrir mundos e tempos na cosmogonia incessante da arte? Lançando-se na coreografia poética dos elementos?

O artista nos mostra quão vãs e arrogantes são as tentativas de se domesticar o tempo. Evoca-nos a devolver-lhe a espessura esvaziada na aceleração vertiginosa das mídias e do mercado, a abrir os horizontes às infinitas paisagens do agora. Um agora que se estende em pulsações e ritmos variados. Um agora que, liberto das origens e finalidades, nos expande os vetores da história e as possibilidades do porvir.

Marisa Flórido Cesar

 

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